A NATURA SEMPRE PERDURA
O mundo de lés-a-lés vive em alarmismo,
Por todo lado sucede algo que amedronta,
É o mar; é o vulcão, que ninguém conta,
A Natura nem sempre está do lado do turismo!
Vejamos a Madeira, o horripilante cataclismo,
Que desabou sobre sua gente de ponta a ponta,
Dezenas de mortos, prejuízos de infinda monta,
Talvez haja uma explicação pra este abismo!
Que o arcano da natureza sem dó nos brinda,
Que ninguém tente pear, estreitar os dons naturais,
Que ‘um segundo, vê-se com pavor tudo finda…
Flagelou a Madeira, Haiti há dias no Chile,
Actualmente estas desgraças são pontuais,
Será que o fim em Dois Mil e Doze é, verosímil?...
JUSTIÇA DEVIA SER CASTIÇA
Hoje a justiça dos homens s’eiva, se vende,
N’um leilão, quem dá mais sob amizades,
Fazem-se as leis com mil ambiguidades,
É fácil de ver este “polvo” pró lado que pende!...
Onde há “grana” ou se propala ou se defende,
Em certos casos, até nem há dificuldades,
O rico fura a justiça com todas habilidades,
Que se deduz, quem ganha ou pra quem rende!...
Dizem, à boca cheia, a justiça é, só uma
Está nos livros inserida n’um manto d’espuma,
Pré-feita pra ser um dia a seu favor submissa…
…Ou a certos metidos n’esses escuros meandros,
Pra que ninguém lhe chame, corruptos ou malandros,
É isto e muito mais sombrio a nossa justiça!
DIETA COMPLETA.
Adeus, feijoadas, cabidelas e…o bom verdasco,
Chegou a hora que é imposta grande dieta,
Se quero viver e, continuar a ser este poeta,
Fazer jejum total pra, não ser de mim carrasco!
Escolhe com senso o comer, hoje tudo infecta,
Foge Nelson d’entrar lá na viela no tasco,
Pode ser um p’rigo, pior que cair d’um penhasco,
Lembra-te, meu caro já não és nenhum atleta!
Porque que será, que tudo que é bom faz mal,
Se hoje as saladas são regadas com algo letal?...
Mas o galeno, ordena, até implacável ralha:
-- Senhor Nelson o melhor é abdicar dos petiscos,
Olhe, se quer viver, fuja dos belos mariscos…
Que já conclui, o melhor a comer é, comer palha!
SPORTING CLUBE DE PORTUGAL
Dedicado a todos sportinguistas fieis
Ao SPORTING
(Acróstico: SPORTING O MELHOR)
Saúdo assim o melhor clube de Portugal,
Penso que isto é o meu velho amor eleito,
Orgulho de rio que palpita no meu peito,
Recordações eternas que não olvido afinal,
Imperou em este clubismo perfeito
Nunca morreu, apesar do azar ser pontual,
Ganha ou perca o Sporting é por todos em geral!
O maior, quem diga o contrário, não aceito!
Manifesto aqui meu clubismo, muito meu
Em quanto viver, recordo Azevedo e Peiroteo,
Lamento só que tal passado não vingue!
Homens como aquele quinteto de violinos,
O seu amor ao clube era dos mais finos,
Resta, hoje pouco desse meu SPORTING!
MÂE AINDA TE OUÇO!...
(Soneto para o dia da mãe)
Tantos anos passados ‘inda sinto que meu peito,
Conserva latente uma saudade imensa,
Que tu, QUERIDA MÂE, após tão terrível doença,
Me deixaste p’ra sempre como fosse mero jeito!
Eu te recordo assim, a torto e a direito,
Apesar d’homem linda ouço tua sentença,
Filho segue o bom caminho, e com senso pensa,
Tuas acções serão obra de meu conceito!
Sim, MÂE, teu filho ouve ‘inda hoje isto
Nada há que faça, que não tenha o registo,
A tua nobre doutrina que sigo e obedeço
Por mais tempo que viva, minha lembrança,
Hei-de lembrar tudo do meu tempo de criança,
Que criaste, MÃE com tanto, tanto apreço! …
O GRITO DAS RAMEIRAS
Em noites límpidas e bentas
Cobertas de poeira de luar,
Nas vielas escuras e nojentas
As rameiras começam a cantar:
Insultam a minha vida…
Ser prostituta…Que tem?
Eu antes de ser perdida,
Já fui senhora também!
Tive uma fila… E a morte
Não quis levá-la ao morrer,
Mas pra assim ter tal sorte,
Mais lhe valera morrer!
Se a desgraça fosse gente,
Padeceria a cantar,
Que se o mundo ri contente,
Nós rimos, mas a chorar!
Foi perdida, e é princesa…
Alma sobe e lama cai…
Todos beijam a riqueza,
Ninguém lembra o que lá vai!
Se todo mundo soubesse
Quantos astros há no céu,
Talvez nunca escarnecesse
D’um astro que se perdeu!
Vinde embora raparigas!
A lua vai-se deitar,
E o pranto dessas cantigas
Não seca o riso a chorar!
E as prostitutas, quando a noite é velha,
Errantes, vagabundas, sepulcrais,
Deixam a negra podridão da quelha
E vão dormir nas sombras dos portais!
QUEIXUMES
Não chores o teu fadário
O’ pobre mulher perdida,
Que o bordel é um santuário
Onde a paixão tem guarida.
Ouvi dizer que a saudade
Foi viver p’r’o lupanar.
Por isso mesmo, a vaidade
Nos palácios foi morar.
Chamam perdida, e eu sei
Que o mundo não tem razão
Que direito tem a lei
De oprimir o coração?
Mulher honesta é um nome
Que o grande mundo inventou.
Mas um dia veio a fome
E a honestidade tombou.
Deixa o mundo poluir
A tua boca rosada,
Porque não tarda a surgir
A luz da nova alvorada.
Sou cruel por não te amar,
Por ti não ter ciúmes?!
Deixa, louca, teus queixumes,
Não me quero atormentar.
Atraiçoar este amor!?
Isso é que não minha bela!
Amor é só um. Tem cautela
Não brinques com essa flor!
POETA VELHINHO!
Diz-me que um velho amador
(parece um conceito antigo…)
É um Inverno em flor…
Velho amador?...É comigo!
Porque sou entre os novatos,
Um poetastro velhinho,
Que à musa vai dando tratos?
Quanto mais velho é o vinho—
--Se não é um mata ratos—
Mais se aprecia um copinho!
Se em coração juvenil,
Às vezes, vicio ou ternura
É qual perfume subtil
Que se evola, não perdura,
Em peito velho e senil
Acompanha à sepultura.
E se amou na juventude
A Camena— ou a mulher—
Chegado à decrepitude
Sente esse amor renascer!
MINHA DIRECÇÃO!
Moro em BELVERDE/AMORA, Travessa dos LIRIOS,
N’uma casa portuguesa, rodeada de flores,
Longe do trânsito Multidão, esses delírios,
Que toda minh’alma s’embriaga de louvores!
Depois de VINTE CINCO anos de martírios,
D’emigrantes, entregues a acerbos labores,
Aqui cheguei, p’ra gozar uns anos”empíreos”,
Na casa que baptizamos com nome DOIS AMORES!
Situa-se n’uma rua pequena, isto é, TRAVESSA,
N’um gaveto com jardim, com árvores de fruto,
Damascos! Peras! Figos! Em grande remessa...
É, este o nosso PARAÍSO que exibimos, ufanos
Com lindos azulejos com que prestamos tributo,
Oxalá, meu Deus, que seja por muitos anos!
Nelson Fontes Carvalho
BELVERDE
. AMIZADE É: Um conselho é ...